Concerto
Ele estava em casa, não sabia o que pensar depois do que houvera acontecido. Perguntava-se porque tudo tinha de ser daquele jeito. Estava confuso. Eram milhões de pensamentos, vozes polifônicas, mais para Stravinsky do que para Bach. Rodando incessantemente. Sentado no sofá da sala. O peso em seus ombros fazia-o pensar que já estava assim há anos.
Decisões não eram bem o seu forte, mas aquela ninguém mais poderia tomar por ele. Sentia a tristeza melancólica de um acorde menor com sétima. Ainda assim, estava longe de um réquiem, sentia mais como um noturno. Ou, um longuíssimo e romântico adágio, executado a mais de vinte anos e interrompido apenas por breves momentos de alegro vivace. Mas ele fez, e agora não podia mais voltar atrás. Pensando bem, nem era isso que queria.
Lembrou-se dela mais uma vez, por certo não seria a última, essas coisas não se esquecem assim tão fácil. Já não estava mais dentro dele, tinha ido à Veneza ou ao inferno talvez, não importava mais.
Agora tinha outras prioridades. A primeira delas era levantar-se dali. Tomar um banho, comer alguma coisa. Finalmente dera-se conta de que estava na hora de uma ária. A sua ária. A timidez é uma ambição disfarçada de humildade. Sem desejo de grandeza não há medo de falha. Pensar sobre o problema não resolve o problema. Fez sinal para o maestro adiantar o andamento pois já pressentia os primeiros bocejos da platéia. Saiu.
Olhou as flores, viu a grama, havia sol aquele dia. Não quis mais voltar. E não voltou. Seguia em frente, molto presto. Ouvia Chopin e Liszt, lembrou-se de Paganini e resolveu que seria como ele. Decidiu-se: ninguém o iria impedir...

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