Rodrigo


sleepy hollow

Domingo, Outubro 10, 2004

Palavra de candidato

Este texto foi retirado do site www.carosamigos.com.br

por César Cardoso
"Vote em mim. Eu não sou qualquer candidato, você sabe, sou o candidato que desce redondo. Vote, vamos, deixe o sonho te levar e faça a escolha certa. É inteiramente grátis, é só votar e relaxar. Vai, diga pra você mesma: eu mereço esse candidato. E vote com amor. Vote numa boa. Vote pra valer. Vote no melhor. Vote no que sabe. Vote no que faz. Vote no que dá samba. Sim, porque os bons tempos estão de volta e o futuro é aqui. Vote, eu sou a proteção que você precisa, na medida exata. Vote em mim e sinta-se seca e segura. Olha, nunca foi tão gostoso votar. Por isso, revele a estrela que existe em você: vote em mim!

Não? Você não vai votar em mim? Nem em ninguém? Mas por que essa descrença? Isso não vai resolver. Me escute, por favor. Você ainda não está a par, mas a descrença é o grande mal da humanidade. Tem coisas que você ainda não sabe, mas acho que chegou a hora da revelação. Olha, você deve, sim, votar em mim, porque eu sou o candidato e só através de mim se chega à democracia. E tem mais coisas que eu ainda não te mostrei. Não mostrei, por exemplo, que sem a democracia as trevas tomarão conta de tudo e o mal irá reinar por mil anos. É a verdade. E aquele que não acreditar na verdade carregará para sempre o arrependimento. Você vai fazer uma escolha importante, a mais importante de todas. De um lado, os ímpios, os infiéis. De outro, nós, os que votam em mim. Porque, votando em mim, o seu dinheiro surgirá. E suas dores desaparecerão. E seu aluguel diminuirá. E sua filha deixará de se prostituir e o câncer de sua mãe sumirá. Vote em mim porque, se há problemas, eu sou o caminho e a cura.

Nem assim? Mas por quê? O que é que eu preciso fazer pra você votar em mim, criatura? Não, calma, não vamos nos precipitar. Eu tenho uma idéia. Me escuta, me escuta. E, se eu pedir com jeitinho, você vota? Hein? Hum? O que passou, passou, tá? Vamos combinar assim, de agora em diante, você vota em mim e eu faço gostoso tudo que você pedir, tudo que você quiser. E eu sei o que você quer. Sei que você só pensou em não votar em mim porque não imaginava que eu sou eternamente deslumbrante, incontestavelmente apaixonante, indiscutivelmente escultural, indecepcionavelmente inesquecível. Alguma vez na sua vida eleitoral você já votou em alguém assim, só pra você? Confessa, vai! Confessa que você já está doidinho pra votar em mim. Então?, vem logo, vem! Já imaginou? Você votando em mim, só em mim, e eu realizando todas as suas fantasias, adorando tudinho que você mandar, assim, agora!

Mas como? Não vai mesmo votar em mim? Não há hipótese? Sua decisão está tomada e o assunto encerrado? Pois olha, acho melhor você pensar bem no que você vai fazer. Depois pode ser tarde demais. Você tem família, não tem? Mulher, sogra, duas filhas. Eu sei. Eu sei onde você mora. Eu sei que a sua filha mais nova está fazendo o curso normal naquela escola perto da sua casa. Ela sai tarde, aquele lugar é ermo, escuro, perigoso. Você não gostaria que acontecesse alguma coisa com a sua caçula, gostaria? Claro que não. Nem eu. E, você votando em mim, eu vou cuidar da segurança do bairro. Pessoalmente. Você quer acabar com a violência, não quer? Então, vota em mim e você vai estar seguro. Eu garanto. Mas, se eu não for eleito, aí eu não me responsabilizo. Pode acontecer de tudo aqui. E vai acontecer de tudo aqui. Mas você não quer que aconteça de tudo aqui, quer? Não, não quer. Eu sei. Por isso vai votar em mim, não vai? E vai me ajudar, claro que vai, não é? Vai até arranjar mais votos pra mim. Na sua família, no seu trabalho, na vizinhança. Já estou vendo, você e a sua caçula fazendo campanha. Olha, eu fico até emocionado só de imaginar.

Isso, assim é que se fala. Obrigado pelo seu voto. Eu não vou te decepcionar. Te dou minha palavra. Palavra de candidato!"